1.2.1 -Síntese
Uma prolongada situação de guerra impediu o normal desenvolvimento
das actividades económicas e neutralizou uma enorme quantidade
de recursos humanos e materiais.
Ainda assim, a economia angolana tem gerado riqueza suficiente
para que o seu PIB per capita esteja estimado em níveis
que rondam os USD 800 ou seja cerca de 10% acima do limiar que
separa (por convenção emanada do Banco Mundial) os países de baixo
rendimento dos de médio rendimento.
Tal só é possível devido aos traços particulares do tecido económico
angolano, essencialmente dominado pelo sector petrolífero, a funcionar
em regime de enclave (bem como, em menor escala, o diamantífero).
Voltou, aliás, a ser esse sector o principal sustentáculo do
dinamismo económico observado em 1997, ao registar uma expansão
de 9% em volume graças à exploração de novas áreas, ao impacto
da reabilitação encetada depois das destruições de 1993 e ao dinamismo
induzido pela subida dos preços internacionais, da qual resultou
um crescimento real do PIB, estimado em 7,3%. Preços que presentemente
(Julho de 98) estão em queda.
O extraordinário desempenho da actividade petrolífera foi um
dos elementos marcantes, pela positiva, no âmbito da evolução
conjuntural evidenciada pela economia angolana em 1996, a qual
beneficiou também de um importante progresso ao nível da dívida
externa, com a celebração de acordos que permitiram um substancial
alívio da mesma, traduzido pela redução do stock global
(menos 28,9% face a 1995), e em especial das parcelas correspondentes
à de curto prazo e aos atrasados.
O contributo de ambos esses factores seria determinante para
o enviesamento favorável verificado no domínio das contas externas
- bem expresso na redução do défice das transacções correntes
para um patamar equivalente a 8% do PIB (ou seja o menor valor
dos últimos seis anos) e no reforço das reservas oficiais, pela
primeira vez desde 1992 - embora se deva salientar que a programação
para 1997 aponta no sentido oposto, com nova deterioração impulsionada
sobretudo pelos débitos de mercadorias e de serviços e rendimento.
| |
1994
|
1995
|
1996(est.)
|
|
PIB real (t.v. anual)
|
8,2
|
12,0
|
7,3
|
|
Inflação (t.v. homóloga)
|
971,9
|
3783,9
|
1650,4
|
|
Massa monetária (tv.a.)
|
1922,9
|
1481,6
|
3479,1
|
|
Saldo da BTC (%PIB)
|
-12,9
|
-11,7
|
-8,0
|
|
Saldo orçamental
|
-25,3
|
-28,8
|
-21,5
|
|
Dívida externa %PIB
|
256,3
|
235,2
|
134,3
|
Quadro nº 1- Principais indicadores Económicos
. Fonte: Evolução das Economias dos PALOPs 1996/97- Banco de Portugal
O terceiro aspecto favorável que caracterizou a conjuntura macroeconómica
de 1996 não terá sido menos importante que os anteriores, pois
poderá representar (caso se consolide em bases sustentadas) o
início da ultrapassagem de um dos problemas mais sérios até aqui
enfrentados pela economia angolana: a acentuada instabilidade
financeira, cujo ponto culminante foi o final do primeiro semestre
de 1996 com a inflação homóloga acima dos 10 000%.
Para tentar fazer face a essa situação lançou-se, em Julho desse
ano, o Programa Nova Vida (PNV), no quadro do qual foram tomadas
medidas como o controlo dos preços (largamente ineficaz), mas
sobretudo se impôs um aperto das políticas monetária e orçamental
(em boa medida de forma não-consolidada, pela acumulação de atrasados
internos).
Foi assim possível quebrar drasticamente a cadência inflacionária
—graças também a uma política cambial mais activa, que se apoiou
no reforço das reservas cambiais para estabilizar o kwanza
(até Julho de 1997, quando este foi desvalorizado em 30%,
compensando a apreciação real verificada).
1.2.2 - Produção e Preços
Ao evidenciar um crescimento real estimado em 73%1 no ano de 1996, a economia angolana terá
confirmado o aparente paradoxo que a vem caracterizando, ou seja
a compatibilidade entre uma ruptura generalizada do tecido social
(inevitavelmente resultante da prolongada guerra civil) e um ritmo
acelerado de crescimento económico.
A razão para que tal paradoxo seja apenas aparente decorre de
um dos traços fundamentais da estrutura produtiva angolana, isto
é, a excessiva dependência relativamente ao sector petrolífero
e o funcionamento deste em regime de enclave, circunstância que
lhe tem permitido escapar, em grande medida, à devastação provocada
pela guerra (salvo em 1993, quando esta atingiu proporções excepcionais,
daí resultando que a economia se contraiu 21% em termos reais)1.
Na origem do crescimento económico agora apurado voltou a estar,
de facto, o referido sector, que se terá expandido a uma taxa
real próxima de 9% (beneficiando da exploração de novas áreas,
do impacte produzido pelos investimentos de reabilitação posteriores
a 1993 e do efeito dinamizador suscitado pela alta dos preços
internacionais), enquanto o resto da economia se quedava por 4,5%.
Em consequência, estima-se que a actividade petrolífera seja
já responsável por cerca de 60% do PIB angolano, com base em contas
nacionais relativamente pouco seguras, é certo, que de acordo
com as quais essa proporção aumentou aproximadamente 20 pontos
percentuais em 5 anos.
A evolução positiva ou negativa da venda de petróleo, decorrente
sempre de factores externos, influenciará fortemente o evoluir
da economia angolana nesta fase.
| |
1994(est.)
|
1995(est.)
|
1996(est.)
|
1997 (est.)
|
|
Sector primário
|
65,5
|
64,9
|
67,4
|
|
|
Sector petrolífero
|
58,1
|
56,0
|
59,3
|
51,1
|
|
Sector secundário
|
10,0
|
10,6
|
10,0
|
9,0
|
|
Sector terciário
|
23,3
|
23,5
|
21,9
|
21,9
|
|
Impostos indirectos
|
1,2
|
1,0
|
0,7
|
0,7
|
|
PIB pm
|
100.0
|
100,0
|
100,0
|
100,0
|
Quadro nº 2 - Decomposição do PIB pm.
Fonte: ‘Evolução das Economias dos PALOPs 1996/97” - Banco de
Portugal.
Importa, no entanto, reconhecer igualmente a evolução positiva
esboçada por outros sectores a partir de 1994 (embora a respectiva
quantificação seja também forçosamente aproximativa), sobressaindo
a indústria transformadora e a construção - ambas com bases de
partida muito diminutas.
Quanto a dois outros sectores cruciais, o agrícola (no que se
ocupa ainda a maioria da população) e o diamantífero (com potencial
de rentabilização inferior apenas ao petróleo) parecem ter tido
comportamentos diferentes nos últimos três anos: enquanto o primeiro
progredia a bastante bom ritmo (especialmente em 1995), o segundo
só em 1994 recuperaria um pouco da quebra abrupta verificada no
ano anterior, continuando em seguida a regredir.1
Note-se, por outro lado, que as perspectivas traçadas para 1997
sugerem um cenário inédito na década em curso, pois admite-se
que o crescimento previsto (em termos reais) seja impulsionado
menos pelo petróleo do que pelo resto da economia (destacando-se
sobretudo os diamantes; mas também a agricultura e a electricidade)
— sendo, porém, claro que um tal cenário dependerá muito especialmente
da forma como evoluir o processo de paz em curso
Determinante para a evolução foi o abrandamento, em meados de
1996 da crescente instabilidade financeira - que requer agora
um esforço para a sua consolidação sustentada.1.
Igualmente determinante para a evolução económica futura (na
medida em que ajude a criar condições para um crescimento assente
em bases mais sólidas e duradouras) foi o travão imposto em meados
de 1996 a excessiva e crescente instabilidade financeira, processo
que deve ser consolidado de forma sustentada
Recorde-se que o nível geral de preços havia encetado, no segundo
semestre de 1995, uma escalada particularmente pronunciada, contrariando
as intermitentes tendências de abrandamento esboçadas em meados
desse ano e do anterior.1
Confrontadas com um grau de instabilidade nunca antes visto (conforme
evidencia o pico atingido pela variação mensal do IPC em Maio
de 1996: 84,1%), as autoridades lançaram então o Programa Nova
Vida (PNV), cujo objectivo principal era, precisamente, combater
a instabilidade, quebrando o ciclo inflação/desvalorização.1
Embora a vertente cambial do Programa se tenha aplicado como
previsto, produzindo o resultado pretendido, já no tocante ao
abrandamento da cadência inflacionária - que efectivamente se
verificou (e de forma abrupta) - não terão sido especialmente
determinantes as medidas que maior destaque mereceram, isto é,
os controlos sobre os preços
De facto, a reintrodução de regulamentação apertada neste domínio
parece ter acabado por se revelar largamente ineficaz, pelo que
as razões justificativas da desinflação devem ser procuradas antes
no campo da moderação cambial e, sobretudo, da contenção orçamental
e monetária.1
Constata-se, pois, que foi efectivamente conseguido um abrandamento
drástico da cadência inflaccionária, patente logo a partir de
Agosto (quando a variação mensal do IPC se cifrou já em apenas
9,5%) e progressivamente acentuada até Novembro (altura em que
o mesmo indicador acusou um acréscimo de 0,7% face ao mês anterior.
Chegou-se, assim, ao final de 1996 com uma taxa anual de inflação
homóloga cifrada em 1650%, valor que foi o mais baixo em 18 meses
e cujo significado fica claro se for confrontado com os 12 035%
de Julho.1
A tendência de abrandamento seria, contudo, algo contrariada
mesmo no final de 1996 - conforme ilustra a inflação mensal, cujos
valores de Dezembro e Janeiro contrastam sensivelmente com os
do período anterior. Associado à acentuação brusca do expansionismo
orçamental, esse fenómeno parece ter sido, todavia, meramente
esporádico, pois os meses seguintes evidenciaram um regresso do
IPC à moderação, marcada por uma inédita variação mensal negativa
em Março pela acentuação da queda no tocante à inflação homóloga
(92% em Junho de 1997) e pela consagração da mesma tendência por
parte da inflação média - indicador mais lento, cujo nível final
de 1996 (4145%) era ainda superior ao de 1995 (2672%), mas acabaria
por se fixar em 665% no final do primeiro semestre de 1997.1.
1.2.3 - Contas Externas
O petróleo tem cada vez mais um peso preponderante na economia
angolana, grandemente debilitada pela situação de guerra que vive
há largos anos.
A dependência do petróleo vivida pela economia angolana é bem
patente nas contas externas, quase totalmente suportadas por este
produto.
São as exportações de petróleo que têm permitido ao saldo comercial
ser positivo, o que já não acontece com o conjunto das transacções
correntes, o que se salda num endividamento crescente e numa volumosa
acumulação de atrasos da dívida externa.
No entanto, em 1996 este cenário não se repetiu totalmente, devido
ao acréscimo das exportações de petróleo e à acentuação do saldo
negativo, registado pelos serviços e rendimento, e pela captação
de uma importante fatia de investimento directo estrangeiro (tal
como já sucedera no ano anterior, em alta, face aos níveis precedentes).
Há ainda que destacar uma importante redução de atrasos, aliada
ao substancial alívio da dívida externa, que compensou uma boa
parte do défice global1.
A balança comercial apresentou um excedente particularmente excepcional
(USD 3094 milhões, o que é duas vezes superior ao observado há
apenas dois anos), acentuando-se ainda as importações, que entre
1993 e 1995 estiveram estacionárias e que em 1996 tiveram um acréscimo
bastante pronunciado, mais 35,1% face a 1995, sendo uma variação
percentual pouco inferior à das exportações1.
Este aumento está relacionado com a disponibilidade de recursos
criada pelo dinamismo das exportações, que correspondeu quase
unicamente aos produtos petrolíferos (embora as restantes rubricas
também tenham acelerado ao mesmo ritmo de crescimento, quedaram-se
com um peso de apenas 6%).
A evolução favorável do sector petrolífero esteve relacionada
com a subida de preços internacionais e também com o aumento das
quantidades produzidas (cerca de 10%), baseado na exploração de
novas áreas e no impacte dos investimentos de reabilitação levados
a cabo após as destruições de 1993.
O enviesamento positivo da balança comercial teve um efeito pouco
acentuado no conjunto das transacções correntes, apesar de ainda
assim ser suficiente para que o défice da BTC se fixasse no equivalente
a 8% do PIB, contra 11,7% em 1995.
Este resultado pouco brilhante não se ficou a dever apenas às
transferências unilaterais e aos créditos de serviços e rendimentos,
pois estes apresentam os mesmos valores pouco expressivos dos
outros anos, mas resultou também dos respectivos débitos, onde
pontificam rubricas como as viagens e a assistência técnica, totalizando
um total de USD 3930 milhões, mais 24,2% face a 1995.
Embora o défice de transacções correntes tenha sido atenuado
por um superavit dos capitais de médio e longo prazo, o
mais dilatado da época devido aos volumes de empréstimos desembolsados
e de investimento directo estrangeiro, as necessidades de financiamento
globais acabaram por se ver agravadas pelo significativo saldo
desfavorável dos capitais de curto prazo (onde constam erros e
omissões). Apesar desse facto, registou-se ainda, ao contrário
dos últimos anos, uma importante acumulação de DLX (elevando as
reservas brutas para o equivalente a 1,5 meses de importações
de bens e serviços), graças ao alívio da dívida externa.
Este é, pois, mais um aspecto positivo que marcou a conjuntura
angolana em 1996, pois a referida dívida vinha assumindo um peso
cada vez maior, desde os USD 9942 milhões em 1993 aos USD 12 489
milhões em 1995, quando consistiu em já 235% do PIB1.
Aliados à crescente dívida apresentavam-se ainda mais dois aspectos
negativos: o crescimento da dívida de curto prazo (USD 2051 milhões
em 1995) e a progressiva acumulação de atrasados (com uma parcela
do stock total a médio e longo prazo superior a 50% em
1994/95) 1.
O reescalonamento com Portugal, que passou para um prazo mais
alargado, quase USD 1200 milhões de débitos a curto prazo, e a
renegociação com a Rússia, levaram a uma diminuição substancial
da dívida1.
A Rússia era o principal credor de Angola (cerca de 45% da
dívida total registado em 1995), sendo que o acordo estabelecido
“perdoava” 70% dos débitos e reescalonava o remanescente, pelo
que a dívida total de Angola desceu para USD 8886 milhões no final
de 1996 (134% do PIB) 1.
A previsão do Banco de Portugal para 1997 foi de uma deterioração
do cenário, patente tanto ao nível das transacções correntes (cujo
saldo negativo poderia rondar 10% do PIB’) como da balança básica
no seu conjunto (que poderia apresentar um défice global cifrado
em USD 1108 1 milhões, cerca de cinco vezes superior ao apurado
em 1996).
Na origem deste resultado, que se alia a um aumento esperado
das DLX para determinar um diferencial de financiamento muito
dilatado, admite-se que estejam novos aumentos dos débitos de
mercadorias e de serviços e rendimentos, assim como uma queda
para metade nos desembolsos de capitais, mais do que contrabalançando
a continuada robustez das exportações e da diminuição dos encargos
com a dívida.
* Nota: Balança de Pagamentos, ver capítulo 4 - ponto 4.1:
Contas Nacionais.
1.2.4 - Finanças Públicas
As finanças públicas angolanas têm sido
grandemente influenciadas pela guerra e pelo sistema político,
que se repercutiram nas receitas - diminuição da produção - e
nas despesas - despesas de armamento, do processo de paz, da desmobilização
dos efectivos militares.
Este desequilíbrio orçamental contribuiu para uma instabilidade
financeira provocada por outros factores já referidos.
À medida que o défice público global se ia avolumando (aumentou
continuamente desde 13,3% do PIB em 1992 até 28,8% em 1995) 1.
O respectivo financiamento ia sendo assegurado, crescentemente
através da emissão de moeda pelo Banco Central, o que provocou
pressões sobre os preços que redundaram na intensificação da cadência
inflacionária.
Grau de execução dos OE
Quadro n. 3 - Grau de Execução dos OE entre 1994 e 1996.
em percentagem do orçamento
| |
1994 |
1996(est.) |
1996 (est.) |
| Receitas correntes |
169,2 |
119,9 |
282,9 |
| das quais: tributárias |
183,0 |
----- |
370,5 |
| Despesas correntes |
336,5 |
312,3 |
457,3 |
| das quais: pessoal |
129,2 |
145,8 |
162,2 |
| Bens e serviços |
379,2 |
439,5 |
255,1 |
| Transferências |
389,7 |
116,4 |
158,1 |
Fonte: ‘Evolução das Economias dos PALOPs 1996/97” -
Banco de Portugal.
Por este motivo, o PNV, para atingir a estabilidade financeira,
intensificou-se neste campo através do aumento da contenção,
que surge já reflectida na execução orçamental de 1996 (principalmente
a partir do segundo semestre com a queda do saldo global,
cifrado em 21,5% do PIB - na óptica dos compromissos)1.
A melhoria da situação orçamental nasceu não só das despesas
(sob controle), mas fundamentalmente das receitas, que atingiram
o nível mais elevado da década em percentagem do PIB (44,5%),
fruto do sector petrolífero, cuja fatia das receitas totais subiu
a cerca de 90% devido ao aumento das exportações, bem como uma
mais acelerada liquidação da Sonangol1.
É no âmbito das despesas que urge agir, para que se reencontre
o equilíbrio das contas públicas, pois são as despesas o factor
de influência mais negativo nos orçamentos.
De facto, o grau de execução das despesas correntes em relação
ao orçamentado tem sido continuamente muito elevado nos últimos
três anos (457% em 1996) - o que até certo ponto pode ser atribuído
à utilização de valores nominais, pois o grau de execução das
receitas, também nominais, ficou sempre largamente aquém de tais
níveis1.
Na estratégia de combate à inflação, frutuosa em 1996, a diminuição
do défice orçamental encarado numa óptica de compromissos acabaria
por ser menos importante do que o impacto da execução vista numa
óptica de caixa - levando em conta as despesas realmente pagas
e não apenas as autorizadas.
A variação dos atrasados internos foi muito significativa (pelo
menos um terço do saldo global, na óptica de compromissos, isto
é, 7% do PIB) 1., quer por não terem sido liquidados
a tempo salários e bens ou serviços requisitados, quer por o Banco
Central não ter dado seguimento a ordens de saque emitidas sobre
as contas do Tesouro (refira-se que o crédito líquido ao SPA se
contraiu em 1996 pela primeira vez nesta década).
Esta prática, insustentável a prazo, determinou uma contenção
importante da despesa agregada - restando saber em que medida
e de que forma se fará a regularização desses atrasados, da qual
poderá obviamente resultar um impulso expansionista que leve à
acentuação da instabilidade financeira1.
As despesas de 1996 apresentam um peso excessivo da parcela residual,
reflectindo deficiências de classificação, dificultando a análise
das outras rubricas, seguramente subavaliadas. Nos dados apresentados,
sobressai o escasso montante afectado ao investimento (devido
ao atraso imposto a determinados projectos de reabilitação, dependentes
do processo de paz), a contínua redução do peso atribuído às transferências
(que terá resultado principalmente de um corte nos subsídios aos
preços dos combustíveis) e ainda o maior destaque que tendem a
ter as despesas com o pessoal, depois da quebra vivida nos últimos
dois anos (esse ganho foi substancial em Dezembro, o que provocou
alguma instabilidade passageira, no índice de preços) 1.
Manter esta tendência foi um objectivo das autoridades durante
1997, atribuindo aos salários e ordenados cerca de 26,7% das despesas
correntes orçamentadas (contra os 14,1 % executados em 1996)
1.
Com esta conjugação de esforços e medidas (redução das despesas
e aumento das receitas — na maior parte não petrolíferas), espera-se
que resulte uma queda do défice global1.
1.2.5 - Situação Monetária, Financeira e Cambial
A política monetária angolana tem vivido uma certa passividade,
havendo uma acomodação em termos de expansionismo orçamental (com
o financiamento do défice público a ser assegurado sobretudo por
via interna), o que levou a pressões inflacionistas resultantes
numa derrapagem dos preços e dos câmbios. Em termos das contas
monetárias, as consequências foram grandes acréscimos dos meios
de pagamento ao longo do período 1993/95, impulsionados principalmente
pelo crédito líquido ao SPA
Em 1996, houve uma alteração radical desta passividade, devido
a dois factores: o volumoso afluxo de activos externos, associado
à melhoria global da balança de pagamentos, do qual resultou uma
expansão da liquidez devida principalmente à pressão das DLX (com
um impacte equivalente a 71,2% da referida expansão, excluindo
desta o efeito das flutuações cambiais); e o enviesamento restritivo
que se procurou inserir na condução da política económica a partir
de meados do ano, com o lançamento do PNV.
Este Programa teria uma influência positiva através da impressão
directa de um cunho mais restritivo à política monetária e através
do aperto indirecto à execução orçamental (quer numa óptica de
compromissos, quer sobretudo numa óptica de caixa). Deste último
factor resultou uma variação negativa do crédito líquido ao SPA
(menos 35,9% face à dívida final de 1995), embora se possa contrapor
que haveria margem para um grau superior de esterilização dos
afluxos externos.
No campo da política monetária há a registar as seguintes alterações:
Elevação da taxa de reservas obrigatórias sobre os depósitos
à ordem em moeda nacional (de 20% para 40%) e a indexação das
taxas de juro ao ritmo da desvalorização cambial, regra abandonada
em Março de 1997, quando se optou por fixar taxas de juro a níveis
considerados positivos em termos reais, acompanhando a descida
da inflação e procurando assim contribuir para o aumento da poupança
interna e o aprofundamento do sistema bancário - além de um acompanhamento
mais rigoroso dos limites de crédito estabelecidos para os bancos
comerciais (cuja definição passou a ser feita com base na estrutura
dos respectivos depósitos, também neste caso para levar à captação
de poupanças)
As medidas referidas não evitaram que
o crédito à economia aumentasse de uma forma substancial, equivalendo
a cerca de 14% da expansão dos meios de pagamento (embora sendo
na sua maioria destinado ao sector privado, e não tanto às empresas
públicas, como em anos anteriores). Este acréscimo poderá pecar
por defeito, devido à dimensão do aumento líquido observado na
esfera da rubrica residual (excluindo a parte correspondente à
compensação de flutuações cambiais), o qual poderá corresponder,
em parte, a crédito indevidamente classificado.
Do conjunto destes factores, resultaria um aumento global da
massa monetária de ainda 3479% (o mais acentuado até hoje registado,
com destaque para os depósitos em moeda estrangeira, indicativos
da perda de confiança no kwanza), apesar de a variação
patente a partir de Julho ascender já apenas a 133,9%. Trata-se
aliás de uma tendência que a autoridade monetária pretendia acentuar,
programando para 1997 um acréscimo de 52,7%, o que corresponde
na sua maior parte a um aumento do crédito ao sector privado,
agindo simultaneamente com uma variação nula do crédito líquido
ao SPA.
De acordo com os dados disponíveis para Junho de 1997, a execução
tem seguido, de forma geral, o programado, sobretudo em termos
do aumento global da liquidez (pouco acima da meta semestral),
pois quanto aos factores que lhe deram origem sobressai uma pronunciada
variação da rubrica residual, eventual reflexo do problema de
classificação atrás referido.
Outro factor importante na estratégia
de estabilização financeira, levada a cabo pelo PNV, foi a utilização
activa da política cambial (determinante numa economia que depende
muito da importação para satisfazer a procura interna), com o
objectivo de estabilizar os câmbios e unificar os mercados. Para
tal, recorreu-se principalmente a intervenções mais frequentes
no Banco Central no mercado secundário, o que se revelou suficiente,
não só devido à maior capacidade de intervenção, fruto do reforço
das reservas cambiais, como também devido à relativa contracção
da despesa interna fomentada pelas restantes vertentes do PNV.
Desta forma, foi possível quebrar a acelerada cadência de desvalorização
do kwanza (2600% no primeiro semestre de 1996, em termos
de taxa efectiva nominal), mantendo estacionárias, por um ano,
as taxas praticadas para o USD. O resultado foi uma significativa
apreciação real da moeda nacional (superior a 30%), que poderia
influenciar negativamente o esforço de relançamento da produção
não-petrolífera, levando as autoridades a desvalorizarem o kwanza
em 30% face ao USD no final de Julho de 1997, o que levou
a um afastamento das taxas praticadas no mercado paralelo, como
já acontecera com o expansionismo de Dezembro anterior e também
na sequência da regularização parcial dos atrasos internos, ocorrida
no segundo semestre.
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